Superior em todos os capítulos, o Marítimo conquistou a primeira vitória no campeonato e deixou declaração de interesses: nós estamos muito vivos.

O Marítimo subiu até à Capital do Móvel com a missão de recolher a melhor madeira para consertar uma nau que vai para 39 anos consecutivos na I Liga. Frente ao Paços de Ferreira, João Henriques promoveu duas alterações em relação ao jogo anterior, atribuindo a titularidade a Chucho Ramírez – ponta-de-lança venezuelano que se estreou no “onze” inicial verde-rubro – e lançando João Afonso para o “miolo”, abdicando de Beltrame. Nas bancadas, cerca de 50 adeptos maritimistas cumpriam o ritual: seja onde for, o Leão do Almirante Reis tem sempre escolta.

O Marítimo iniciou o jogo com uma incursão de Vidigal pelo flanco direito. Travado em falta, Xadas cobrou o livre, surgindo o guardião pacense a rechaçar. Insistiu o Marítimo e, no flanco oposto, Diogo Mendes sofreu falta. De novo Xadas, de novo Jordi, em voo, a afastar. Aos 4 minutos, primeiro canto para o Marítimo, enquanto eram audíveis os maritimistas na bancada. O Paços afastou, Vítor Costa recuperou a bola, subiu à linha de fundo e tirou um cruzamento perfeito. Winck apareceu ao segundo poste, em corrida, mas falhou o remate. Os pacenses, no contra-ataque, deixaram aviso com um tiro que passou ligeiramente ao lado do poste direito da baliza à guarda de Trmal.

Dinâmico o Marítimo, com circulação em busca de brechas na defesa dos “castores”. Aos 8 minutos, Xadas ganhou espaço para cruzar e fê-lo a preceito, mas a defesa anfitriã afastou. Logo depois, recuperação de bola do Marítimo, abnegação de Chucho a ganhar no duelo físico e a partir para a baliza. O venezuelano escorregou, levantou-se, driblou e, com o pé direito, atirou forte para defesa difícil de Jordi para canto. Subiram os centrais madeirenses e Leo Andrade ganhou nas alturas para defesa segura de Jordi. O Paços tentou sair, o Marítimo continuou a não  permitir. Mais dois cantos para o Marítimo. O primeiro resultou num remate de ressaca de Vidigal, desviado. No segundo, Matheus Costa fez falta sobre o capitão Antunes. Respirava o Paços depois de minutos sob vagas de ataque insular.

Xadas era a figura maior do Marítimo. Muito activo, o esquerdino tentou, aos 15 minutos, o golo do meio-campo, ao perceber que Jordi estava adiantado. Notável visão. Só faltaram medidas mais exactas para o “chapéu” caber na nossa ambição. Os pacences ripostaram e assustaram Trmal. Matchoi beneficiou de uma bola perdida na área verde-rubra e rematou forte. Muito bem o checo, novo aviso amarelo. Cresceu um pouco mais a equipa de José Mota, conquistando o primeiro canto aos 20 minutos, sem perigo para as nossas redes. Na saída, Diogo Mendes progrediu bem e sofreu falta à entrada do meio-campo ofensivo. 20 minutos com um Marítimo mais forte e um Paços expectante, mas acutilante nos dois contra-golpes que ameaçaram Trmal.

Chucho isolou-se aos 22 minutos, depois de ultrapassar Antunes, mas o juiz André Narciso considerou que o possante avançado fez falta. Mal assinalado. Segundos antes, teve razão o Paços ao reclamar após intervenção de Leo Andrade, numa falta que o árbitro não sancionou. No entanto, a lei da compensação não é lei, nem existe. O facto é que Chucho ficaria cara a cara com Jordi.

Golooooo do Marítimo. Novo canto, sempre Xadas, regra, esquadro e Chucho Ramírez letal de cabeça. O Marítimo abria o marcador aos 28 minutos. Perfeito, tudo perfeito neste lance de bola parada, merecida a vantagem do Marítimo. Alegria, muita alegria entre os peregrinos do Marítimo no Estádio Capital do Movel.

O Paços reagiu ao golo verde-rubro e poderia ter empatado. Retaliou o Leão do Almirante Reis, com Vidigal sozinho contra o Mundo. Sempre comprometido com o colectivo, o extremo batalhou até conseguir espaço para alvejar a baliza de Jordi. As redes sacudiram, mas pela malha lateral. Aos 37 minutos, o Marítimo apresentava números claros. Um golo, 8 cantos e 60% de posse de bola. A superioridade verde-rubra poderia acentuar-se com o cabeceamento de Leo Andrade, após canto, mas o esférico saiu um nadinha ao lado.

O Marítimo mantinha o Paços sob pressão intensa. Com bola, critério no passe. E foi assim que Vidigal, aos 42 minutos, apareceu isolado. Perante Jordi, Vidigal atirou por cima da barra. Perdeu-se uma oportunidade claríssima para dilatar a vantagem. André Narciso apitou para o intervalo. O golo de Chucho fez a grande diferença na primeira parte.

A equipa de João Henriques regressou para a segunda parte sem alterações. O Paços entrou a todo o gás e atormentou Trmal por duas vezes. Primeiro, Antunes exibiu o seu afamado pé esquerdo. Depois, Trmal voou para suster um tiro muito forte. Respondeu o Marítimo em transição conduzida por Vidigal e acompanhamento de Vítor Costa, mas o passe do extremo saiu mal calibrado para o brasileiro. Aos 50, Trmal saiu da pequena área para agarrar uma bola que parecia controlada, mas um toque legal por parte do adversário deixou a bola à mercê de Antunes. Valeu a intervenção de Matheus Costa. Parada e resposta. Livre para o Marítimo, Xadas na cobrança e Chucho antecipou-se a todos para cabecear. Esteve perto de bisar o avançado maritimista.

Winck, aos 54 minutos, recuperou a bola no meio-campo defensivo, arrancou ao seu estilo, ultrapassou adversários, puxou para dentro e, já em zona crítica, foi travado. Amarelo para o infractor, livre para Xadas. Na conversão, o esquerdino atirou por cima. O Paços ripostou com tiro de Matchoi, também por cima. Muito mais intensa a equipa de José Mota nesta segunda metade da partida.

Perto dos 60 minutos, Vidigal, sempre obstinado, ganhou entre três pacenses e sofreu falta. Do livre nada resultou, mas registe-se, de novo, o compromisso do 7 verde-rubro. Entretanto, aqueciam Edgar Costa, Joel Tagueu e Stefano Beltrame. Aos 61, belo trabalho do Marítimo. Diogo Mendes recuperou o esférico, combinou com Vidigal, apareceu Vítor Costa na esquerda e o lateral brasileiro cruzou com veneno. Chucho, ao segundo poste, não chegou a tempo do desvio. Aos 63, de novo Vidigal. O extremo beneficiou de um corte de João Afonso, encontrou Xadas e o português abriu para Winck que, de imediato, cruzou para a área. Bem a última linha pacense a sacudir. O Marítimo voltava a superiorizar-se e Xadas, sempre ele nas bolas paradas, obrigou Jordi à defesa da noite. Na cobrança de livre, Xadas ludibriou tudo e todos e atirou directo. Jordi, com uma palmada, evitou o segundo golo do Marítimo. O Leão insular continuava em busca de ferir ainda mais o “castor”. Vidigal recorreu à bomba e Jordi só teve tempo para afastar. Depois, Xadas aparece em posição frontal, ideal para aquele pé esquerdo, mas o remate saiu à figura do guardião.

O maestro italiano Beltrame foi chamado a jogo aos 73 minutos. Saiu Xadas, autor de uma exibição à qual só faltou o golo que esteve perto de aparecer naquela execução que levou Jordi a brilhar. Chucho, aos 78 minutos, cedeu o seu lugar a Joel Tagueu. Grande estreia a titular do venezuelano. Para além do golo, com um cabeceamento como ditam os melhores livros da especialidade, lutou muito e nunca deu uma bola por perdida. Bravo, chamo. A imensa comunidade madeirense com raízes na Venezuela está, certamente, em festa.

Na primeira intervenção, Joel quase marcou. Pelo flanco esquerdo, remate cruzado a levar o esférico a passar um pouco ao lado do poste esquerdo de Jordi. Os peregrinos do Marítimo faziam-se ouvir, o Leão insular rugia. Bonito o despique entre os maritimistas e as crianças afectas ao Paço. Ouvia-se, à vez, “Maritimo” e “Paços”. Aplausos para esta lindíssima demonstração de amor clubístico e respeito pelo adversário.

Perto dos 90, o Capitão Edgar Costa entrou para render André Vidigal. Belo jogo de Vidigal. Pablo Moreno também regressou à competição. Saiu Diogo Mendes. Que grande exibição do 16 verde-rubro, omnipresente no “miolo” e sempre preciso no passe. Beltrame, na compensação, esteve na iminência de marcar, mas Jordi defendeu para canto. No quinto minuto da compensação, Trmal salvou o Marítimo após cabeceamento do avançado pacense. Tentava tudo o Paços com Jordi a subir para o canto. Muita ansiedade, aguenta coração. E o Marítimo aguentou, estóico. Vitória justa do Maior das Ilhas. A primeira de muitas.

Obrigado, rapazes. Obrigado, peregrinos. Saudemos o Marítimo.